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A excepção é comercial

Em conversa com João Carvalho, um dos organizadores do Festival de Paredes de Coura, quisemos saber como vão os preparativos e quais as expectativas para a 8ª edição consecutiva deste grande evento.
Agora que se assiste a uma verdadeira proliferação de festivais, uma espécie de “efeito cogumelo”, como lhe chama João Carvalho, qual a estratégia (ou o segredo) de Paredes de Coura?

Em 1999, o Festival de Paredes de Coura viu a sua linha alternativa reconhecida pela crítica, ao ser considerado o melhor. A afirmação desenha-se a cada ano, e a edição de 2000 reforça o afinco com que a organização gere os seus gostos pessoais, adaptando-os às exigências de um público muito especial.

A surpresa deste ano acontece com a fusão propositada do alternativo com o comercial. Para quem se deixe assolar pela ideia de conversão, é melhor imaginar que um dedo não é um braço... Afinal, estes rapazes do interior não são assim tão distraídos... Sem prostituir as raízes, ou dar azo a confusões, porque não perverter um pouco a indefinição óbvia de outros festivais?

O hábito é encontrar cartazes recheados de consumismo massificante, de onde sobressaem duas (às vezes menos) bandas que poucos conhecem. Será a fórmula para agradar a gregos e troianos? Estratégias de marketing, altamente investigadas, mostram que é possível agradar a todos... ainda que alguns só acordem lá para as 3 da manhã, quando os acordes das gigantescas colunas anunciam algumas variações. Paredes de Coura aposta numa filosofia, no mínimo, mais didáctica: sem querer agradar a gregos e troianos, mantém os cartazes e palcos alternativos e, pelo meio, lança um bocadinho de asticô, como quem diz bicha para a pesca, como quem diz uma banda mais comercial, e apanha, por arrastamento, alguns jovens desprevenidos, como quem educa sem impor.

É que, apesar do "efeito cogumelo", a organização continua a valorizar a liberdade de escolha.
Enquanto outras Câmaras utilizam os festivais como rampa de promoção para o concelho, Paredes de Coura já passou por essa fase... e por alguns anos de prejuízo; enquanto outros levam ao extremo dos lobbies a conquista de 16 medalhas de ouro, Paredes de Coura investe em pias para a loiça; e enquanto as necessidades de milhares de jovens, ainda que nómadas anónimos, forem detectadas a grande aposta é ultrapassá-las.

Este ano concretizam-se mais alguns sonhos antigos dos organizadores: Flaming Lips e Mr. Bungle; um festival de jazz, para além do palco principal e dos alternativos; estacionamento para 1200 carros, com acesso directo ao parque de campismo; mais algumas dezenas de chuveiros e sanitários; um site maravilhoso, funcional e internacionalizável; e muitos sonhos ainda por concretizar. As águas límpidas e as trutas renascidas, o sossego da vila e o povo amistoso merecem ser palco desta iniciativa. Ficou nostálgica uma senhora de 80 anos, no final da 7ª edição: Foi-se tudo embora...já não tenho a quem dar couves, nem com quem falar. Fica o saudosismo da população e o carinho com que rezingam a estranha adesão que já sentem.

 
filomena serrano
 

 

 

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